quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

É ISSO AÍ


A Coca-Cola começou a entrar no Brasil juntamente com os ecos da Segunda Grande Guerra, no dia 31 de outubro de 1939, quando Getúlio Vargas baixou um decreto modificando o uso de aditivos químicos em refrigerantes no País. Assunto ainda controverso em 1984, essa mudança na legislação foi essencial para a penetração no Brasil dell'acqua nera dell'imperialismo (a água negra do imperialismo), dizia a esquerda italiana.

Ao contrário do guaraná, por exemplo, a coca contém alguns ingredientes que não são alimentos, podendo ser prejudiciais à saúde. O principal deles é o ácido fosfórico, capaz, segundo os médicos, de combinar-se com o cálcio existente no organismo das pessoas. Ao sair, na forma de fosfato de cálcio, leva esse precioso componente vital. A perda de cálcio - “descalcificação” – é ameaça potencial a ossos e a dentes em formação.

Por isso, muitos cientistas acreditavam que as mulheres grávidas não deviam beber coca. Em 1968, numa pesquisa feita pela USP, mas nunca divulgada, mostrou que ratos alimentados com o refrigerante apresentavam malformação já na segunda geração de filhotes. Seus ossos eram fáceis de quebrar e seus dentes se partiam.

Getúlio Vargas facilitou o quanto pode a entrada da empresa no Brasil. Ele citava o ácido fosfórico explicitamente em seu decreto, permitindo que fosse usado em refrigerante na dosagem de até 1,5 grama por litro. Isso era mais do que suficiente: cada garrafa pequena de coca-cola continha de 0,8 a 1,1 grama do aditivo. Além disso, o volume mínimo das garrafas de refrigerante – que era de 333 centímetros cúbicos (cc) – foi reduzido de modo a incluir as garrafas pequenas de coca – que tinham, nos Estados Unidos, 178 cc, exatamente o que prescrevia a nova lei.

Em 1942, chegaram aos bares, no Rio de Janeiro, as primeiras garrafas do novo “suco”. A Coca-Cola tinha investido apenas 10 mil dólares para ocupar o mercado brasileiro. Em 1944, ainda em plena guerra, um cartaz de propaganda do novo produto estabelecia uma relação entre a aliança antinazista e as facilidades recebidas em sua campanha comercial no Brasil: uma linha fina no rodapé do cartaz, cortada por um minúsculo mapa das Américas, dizia: “Unidos hoje, unidos sempre.”

Retratos do Brasil, Volume I, p. 175. 

Publicado no livro SOCIOLOGIA -  Introdução à ciência da sociedade,  de Maria Cristina Castilho Costa.  Ed. Moderna, 1o. edição, página 124.



 

Nenhum comentário: